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domingo, março 18, 2018

China - O Dragão de 7 Cabeças.

China - O Dragão de 7 Cabeças.


Caros leitores, inicio com este relatório uma série sobre um dos eventos mais dominantes da nossa era: a dramática ascensão da China ao status de superpotência.
Tal dinâmica, junto com a emergência da Quarta Revolução Industrial e de que pode se chamar de “Pós-História”, será provavelmente o principal delineador de como países formulam suas estratégias de crescimento, empresas planejam seu futuro e indivíduos orientam suas profissões e investimentos.

As muitas reinvenções chinesas
Com a elevação de Xi Jinping ao comando do Partido Comunista em fins de 2012 e à presidência do país em 2013 – a China passou a operar sua terceira reinvenção desde a Revolução Maoísta de 1949.
A primeira reinvenção, iniciada com a consolidação de Mao Tsetung no poder, buscou eliminar vestígios da China das dinastias imperiais. Foi marcada pela adoção do regime comunista e seus traços característicos: coletivização da propriedade e trabalho no campo. Estatização dos meios de produção e asfixia da iniciativa privada. Xenofobia econômico-ideológica rumo à autarquia em seu estágio mais insular.
Metas estipuladas por burocratas comissários, crença na infalibilidade do Grande Timoneiro Mao e a formação do “novo homem” da Revolução Cultural produziram milhões de mortos e dissidentes – e uma economia esquálida.
A segunda reinvenção, liderada por Deng Xiaoping desde 1978, valeu-se da disposição dos EUA, no contexto da Guerra Fria, em oferecer recompensas pontuais a Pequim pelo distanciamento em relação a Moscou. A China passou então a gozar desde 1979 do status de “nação mais favorecida” em seu comércio com os EUA.
Reinventou-se, assim, como país que dispunha de acesso privilegiado aos grandes mercados compradores do mundo. Elaborou pioneiramente um regime do que hoje chamaríamos de “parcerias público-privadas” de modo a incentivar o capital que se estabelecia na China a também investir em infraestrutura.
Os chineses mantiveram câmbio e custos de produção artificialmente subvalorizados. Exerceram uma agressiva diplomacia empresarial. Com esse modelo de Nação-Comerciante, a “globalização profunda” dos últimos 30 anos arremessou a China à posição de segunda maior economia do planeta medida pelo dólar corrente.
A terceira reinvenção, contemporânea à consolidação de poder em Pequim nas mãos de Xi Jinping, se deram inicialmente por razões exógenas e endógenas. As que vêm de fora: a paradeira econômica de EUA e Europa desde a Grande Recessão de 2008 parecia ditar a inviabilidade da continuação de uma grande receita exportadora por parte da China.
Além do que, num mundo em que empregos parecem mais importantes que lucros, a ênfase dada à noção de conteúdo local por parte de americanos e europeus tem diminuído a porosidade desses mercados aos produtos “Made in China”.
As que vêm de dentro: as próprias políticas contracíclicas adotadas por Pequim desde 2008 conduziram a um quadro em que os chineses têm salários mais altos – consomem mais; poupam e investem menos.
No limite, trata-se de reinvenção com vistas a um modelo em que a China crescerá menos – mas talvez melhor. O modelo chinês anterior ancorava-se na adaptação criativa realçada por seus baixos custos de produção.
O fato é que a maciça acumulação de excedentes por parte do governo e das empresas chinesas permitiu ao país uma escalada em seus investimentos em ciência e tecnologia. Esta terceira reinvenção chinesa tem na ideia de inovação uma palavra de ordem. Não é de surpreender, assim, como a China tem multiplicado exponencialmente patentes geradas a cada ano.

Um dragão de várias cabeças
Nesse contexto, vale ressaltar que nós nos acostumamos a uma narrativa nestas últimas três décadas que retrata a China como um "dragão de uma cabeça". Incipiente como fonte de capital para investimento em terceiros países ou mantendo um perfil baixo nas grandes questões geopolíticas, a grande relevância para o exterior se dava no campo comercial-industrial.
Nas relações com o resto do mundo, a China mostrou-se sobretudo como um gigantesco polo voltado a exportações. A China aproveitou a janela de oportunidade oferecida pela disputa bipolar EUA x URSS para obter benefícios específicos nas relações econômicas com o Ocidente. Reformou-se internamente de modo a fazer frente a uma estratégia de promoção de exportações que, desde 2013, tornou-a a maior nação comerciante do planeta.
Com a chegada de Xi Jinping ao patamar máximo do poder chinês, essa narrativa do “dragão de uma cabeça” deixou de ser plenamente válida. Ela precisa de complementação. O dragão passa por uma marcada metamorfose.
Por um lado, um maior protagonismo chinês na definição da ordem internacional. Isso sem dúvida vem ocorrendo, sobretudo no campo da governança econômica. A família de novas instituições plurilaterais liderada por Pequim, de que fazem parte o banco dos Brics e o banco voltado à infraestrutura na Ásia (respectivamente, NDB e AIIB nas siglas em inglês), está aí para provar.
A modernização das Forças Armadas chinesas, em especial no que toca ao grau de tecnologia avançada presente nos armamentos, também reforça a ideia de que a China igualmente espera ser reconhecida como membro da primeira divisão do poder duro (hard power) global.
Por outro lado, no domínio das estratégias econômicas, a China faria a transição do modelo "industrial-exportador" para uma nova realidade, a combinar ênfase no mercado interno como motor do crescimento, maior valor agregado à produção manufatureira e diáspora das empresas chinesas em busca de estabelecer operações em países com menor custo relativo de produção.
O monstro de uma cabeça (a da potência exportadora) evoluiria para tornar-se um dragão de duas cabeças (a da projeção geopolítica e a da máquina de investimentos no exterior). Falamos aqui de um forte ator geopolítico cuja economia, de produção mais espraiada em LCCs (sigla em inglês para países de baixo custo), se alimentaria agora sobretudo da demanda interna. O dragão perderia, assim, a cabeça exportadora.
A verdadeira história, contudo, é mais complexa. A China acrescenta músculos militares e também conta simultaneamente com maiores estímulos do mercado interno e presença corporativa crescente no mundo.
No entanto, suas cadeias internas de valor (os chamados "clusters") estão menos dependentes de insumos externos – portanto, mais e mais fases do processo produtivo dão-se no próprio território chinês.
Em 1995, cerca de 55% dos componentes utilizados nas exportações eram importados antes de sua "montagem" na China. Hoje, esse percentual caiu para 35%.
É como se, ao contrário dos países latino-americanos, e em semelhança à trajetória da Coreia do Sul, a China tivesse adotado estratégias de substituição de importações não para o suprimento do mercado interno, mas para a promoção de exportações. É robusta a lista de benefícios fiscais e creditícios concedidos pelo governo chinês para as empresas que desejam exportar.
Nesse quadro, a China estaria logrando uma tripla proeminência: mantém sua competitividade exportadora, incrementa sua presença no exterior por meio de investimentos diretos e goza do elevado status de superpotência política. Ou seja, um "dragão de três cabeças".
A grande questão é: será que essa renovada capacidade chinesa de exportar –reforçada por câmbio ainda competitivo e o dinamismo das cadeias produtivas internas– encontrará mercados no exterior dispostos e capazes de demandar tudo que a China tem a oferecer? A demanda global desaquecida parece ser a principal ameaça de vida curta para o dragão de três cabeças.

China, o grande eclipse
O fato é que a China, goste-se ou não, continua a crescer muito forte. Não mais a taxas de 12%, como há 15 anos, mas alguma coisa entre 6,5% e 7% a partir de uma base de 13 trilhões de dólares.
De acordo com cálculos do FMI, que também mede o PIB dos países pelo critério de poder de paridade de compra, a China já é a maior economia do mundo, o que significa um eclipse marcadamente importante nas relações econômicas internacionais. A última vez que se havia observado algo semelhante foi em 1871, quando os EUA ultrapassaram o Reino Unido.
O resultado disso tudo é o reforço de uma constatação: os Estados Unidos não são mais hegemônicos. São protagonistas, mas ostentam tal condição ladeados pela China.
Os chineses tomam muito cuidado para que sua indiscutível categoria de superpotência não lhes suba à cabeça. Buscam não demonstrar estrelismo, sem tentar impor liderança, por exemplo, naquelas instituições que foram criadas pelos Brics. Fazem isso de maneira muito sutil. É o caso do NDB e também de outras instituições onde os chineses são o principal ator, como o AIIB.
Algo que auxilia a explicar essa postura chinesa está presente numa frase famosa de Deng Xiaoping, grande arquiteto dessa nova fase da China há 40 anos: "hide your strengths, bite the bullet, gain time". Ou seja, esconda suas forças, engula sapos, aceite passar por dificuldades, ganhe tempo.
Assim, os chineses encontram-se numa estratégia de longuíssimo prazo, em que a ascensão precisa ser vista mais como natural do que imposta. Eles gostam muitas vezes de aparecer como país em desenvolvimento, não se desvinculando, por exemplo, na ONU, da agenda dos africanos ou da Ásia mais pobre.
Quanto mais países possam se vincular institucionalmente a processos em instituições pluri ou multilaterais onde a liderança chinesa é potente, isso é melhor para a Pequim. Isso é especialmente interessante debaixo do guarda-chuva do NDB, pois o banco dá à China um veículo que não tem as mesmas amarras geográficas a que se prende o AIIB.
Este último só vai fazer investimentos na Ásia, ao passo que o NDB pode investir em projetos na América Latina, na África, em outras localidades, o que dá à China não só maior espaço de manobra, mas também uma certa indireção que eles tanto apreciam em sua cultura como na política externa.

O que China superpotência quer com o Brasil?
O que essa China superpotência deseja com o Brasil? Bem, o mais correto é notar que as relações econômicas bilaterais passam por um momento inercial.
Do ponto de vista comercial, continua muito parecida com aquela que os países latino-americanos mantinham com a Inglaterra no século 19. Ou seja, por um lado, grandes exportadores de matérias-primas; por outro, um exportador de bens manufaturados de mais valor agregado.
Isso deve continuar. A China tem enormes preocupações com segurança alimentar, precisa mais ainda das commodities minerais para seus projetos de infraestrutura. O que seguramente foge da inércia é aumento perceptível do investimento chinês no Brasil, sobretudo na forma de aquisição de bens, como as chamadas "fusões e aquisições".
Para empresas chinesas que quiseram ter uma pegada global durante um período recente, o momento para a investida é agora. E os chineses vão entrar com tudo também nessa dinâmica de privatizações e concessões, sobretudo quando ficar claro qual será o cenário político brasileiro a partir das eleições de 2018.
Eles estão com o dedo no gatilho para mais investimentos no Brasil em várias áreas, e praticamente todo o segmento da infraestrutura está sendo examinado pelos chineses
No próximo relatório, vamos examinar este novo perfil global da economia chinesa e suas implicações sobre comércio e investimentos relacionados a commodities.



Marcos Troyjo
Marcos Troyjo
Editor convidado

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